
Ao longo dos séculos, as mutações intrínsecas ao próprio fazer artístico e no meio em que esses se desenvolvem são pouco a pouco projetadas aos aparelhos culturais e as ações por eles promovidas. Atualmente, suas atuações são constantemente colocadas em suspensão, enquanto processos de revisão e reformulação são elaborados e novas abordagens são preparadas. Tal movimento revisionista permeia museus, galerias, salões, bienais e centros culturais, e através dele os questionamentos conduzem não apenas para uma reavaliação dos conteúdos que adentram tais espaços, mas, nos melhores casos, à revisões das suas próprias estruturas de funcionamento. O ateliê não foge à regra. Uma vez que esse espaço já foi sinônimo de local de ensino, onde mestres transmitiam conhecimento a jovens interessados em aprender técnicas e exercitar habilidades sob orientação. Por outro lado, ele também já foi associado a um espaço solitário, refúgio dos artistas deslocados da sociedade. Com a ampliação de técnicas, suportes e materiais empregados no fazer artístico, a aparência dos ateliês também mudou radicalmente, tornando-se difícil definir uma característica comum: hoje podem se assemelhar a uma oficina mecânica, uma marcenaria, um ateliê de costura ou até mesmo à pacata mesa de um escritor. Em todo caso, uma característica permanece como essência que define esse lugar: a prática, ou seja, o trabalho.
É no ateliê que o artista pesquisa, reúne suas referências, rascunhos, tentativas e erros. O lugar é tentador para pesquisadores e curadores curiosos, uma vez que ele não favorece hierarquias; ao contrário, privilegia a horizontalidade e a comunhão entre os elementos: o estudo para a próxima série repousa ao lado da obra já concluída e do catálogo de outro artista que aparece como referência. Em tudo, uma vibração permanece, pulsando e contaminando o espaço com a constante possibilidade de um vir a ser. Apesar da já conhecida importância de um local reservado a esse processo, diante da precariedade do sistema das artes e da realidade muito distante de uma dedicação exclusiva ao desenvolvimento de suas pesquisas, hoje a maioria dos artistas elabora suas obras no contrafluxo: entre o trabalho que sustenta a vida diária e o que se desenvolve no ateliê-sala, ateliê-quarto ou ateliê-cozinha. Nesse contexto, surge o Ateliê Esfera. Instalado em um casebre nos fundos de um charmoso café, o espaço já possuía vocação para o trabalho, tendo sido antes um galpão de marcenaria. Com essa atmosfera passada ainda preservada, o local, financiado via Lei de Incentivo Estadual à Cultura, acolheu durante três meses os processos das artistas Nicole Leite e Vitória Gaio. E então, cabe retomar a questão inicial para nos perguntar: quais os contornos definem as possibilidades de um Ateliê de Artista na atualidade? A essa questão, a dupla parece ter encontrado rapidamente uma resposta ativa, afinal, desde o princípio o local se construiu como um espaço frutífero para encontros e interlocução entre diferentes agentes do circuito. Desse mesmo desejo pelo intercâmbio entre pesquisas distintas nasceu a Noite de Performances. Após uma chamada aberta nas redes sociais do projeto, Joseany Zanchet, Nicole Leite, Gustavo Brunch, Vênus Franco, Ira Dorsey e Ítalo Ângelo se juntaram na noite do dia 11/07 para apresentarem seus processos ao público geral. Sendo esse um circuito carente de instituições e pontos de cultura, o Ateliê Esfera surge com o compromisso de proporcionar o atrito, a fricção e a faísca para novos movimentos e coletivos, onde a colaboração é palavra de ordem.
Rainara Sofia | Curadora no Centro Cultural Veras em Florianópolis.


















