Catálogo Mulheres Extraordinárias / Texto Andri Silveira
A obra de Nicole Leite transita na interseção entre ação e cognição. A artista investiga o corpo como um elemento de introspecção, um corpo que hesita, se ajusta, cai e se reinventa. Sua prática performática questiona o automatismo dos movimentos cotidianos e a alienação dos gestos socialmente domesticados, propondo a mexeção como estado de consciência e presença. Nas três obras apresentadas, a cadeira vermelha de boteco funciona como fio condutor: correlacionando suas ações - não - triviais. Em Boka Suja (2025), a artista escova os dentes com tinta preta e os dedos. A ação, simultaneamente íntima e desconcertante, inverte o gesto cotidiano de limpeza e pureza. A “boca suja”, expressão moralizadora, torna-se metáfora a sujeitos reprimidos. Além de artista, Nicole é educadora, e essa vivência permeia sua prática, ressignificando diversas conexões entre palavras, gestos e disciplina. Ao exibir sua língua, órgão que viabiliza a linguagem e a expressão, ela restaura o poder do discurso despido de amarras. O gesto final, ao colocar uma flor na boca e permitir que outra pessoa a retire, reconfigura a ideia de proibição para a de partilha: o que antes era contido se transforma em oferenda. Texto completo aqui / Texto de 2026. ​
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Encarnar a linha, desenhar o gesto / Texto Rainara Sofia
Ao observar a produção de Nicole Leite, nos deparamos com uma questão que parece atravessar todo o seu processo: como fazer da linha dançarina e do corpo desenho? Inquieta, a artista expande esse dilema para diferentes meios e materiais. A simultaneidadede seus processos e a agilidade com que materializa ideias favorecem a criação de obras modulares, nas quais rápidos exercícios ganham grandes dimensões por meio de gestos frequentemente reencenados. Esse método, empregado em diversas etapas de sua pesquisa, pode ser identificado nas séries Beijos (2023-2025) e Berros (2025), ambas marcadas pela expressividade do traço, característica que permite rastrear o movimento das mãos e, por vezes, do corpo inteiro, na fatura das imagens. Texto completo aqui / Texto de 2025.​
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Um olhar que dança a emergência das coisas / Texto de Alena Rizi Marmo (ABCD)
O corpo em movimento e o movimento do corpo percebido no corpo das coisas do mundo. A ansiedade dos movimentos da dança, internalizados no corpo da artista formada bailarina, embalam seus gestos que dão formas aos desenhos, pinturas, fotos e performances no âmbito das artes visuais. É na tensão entre um movimento já muito conhecido e praticado, o de um corpo dançante, e seus impulsos na tentativa do controle da mão que manipula o lápis, o pincel e os objetos, estes últimos exercitados com seu próprio corpo quando performa, que Nicole Leite dá forma à uma produção embalada pelos ritmos da maneira com a qual percebe a vida. Ela olha para as coisas com o olhar de dança. Mas não se trata de um olhar deslocado, mas de uma percepção aguçada de alguém que vive o cotidiano com a mesma intensidade e entrega da dançarina quando está em cena, no palco. E de uma forma que é só dela, Nicole se entrega e se conecta com o entorno, e percebe os movimentos emergentes dos objetos, da natureza e das pessoas os quais guiam o seu olhar e os seus gestos quando instaura cada um de seus trabalhos. Texto completo aqui / Texto de 2024.
ORIENTE OU ONDE O SOL NASCE ANTES / Texto de Agnaldo Farias
(...) Nicole Leite , de primeira bailarina, saiu de Santos para Joinville e hoje, na bica de concluir a faculdade de artes, seu coração pendula entre mídias variadas e entre Porto Alegre e Curitiba; Luiz Cardoso nasceu em Ferraz de Vasconcelos, uma das faces mais vertiginosas de São Paulo, o que talvez explique sua busca persistente pela memória e identidade; Michele Rodrigues vive entre Teófilo Otoni -Minas Gerais-, Vila Velha -Espírito Santo-, e Salvador, por enquanto às voltas com imagens moventes e retratos retorcidos; Fava da Silva veio da Maré, esse Rio especial que grande parte do Rio sequer reconhece. É quem mais viajou, contudo, é a mais comprometida com seu chão.
Seis artistas, seis pessoas corajosas, desarmadas, abertas a trocas, experiências, aos diálogos, com muito mais perguntas do que com respostas, como deve ser. Suas produções, embora cintilantes, estão em pleno processo, não são acabadas. Tenho esperança que se mantenham assim. Texto completo aqui / Texto de 2023